FRANCISCO FIGUEIREDO LOPES
“Duplo Impulso”
Criar implica destruir. Esta tensão inevitável sustenta um ciclo de retroalimentação, onde nada começa sem que algo se desfaça. Criação e destruição não são opostos, mas dois gestos inseparáveis que se alimentam mutuamente, revelando-se como faces de um mesmo impulso. É nesse intervalo instável, onde a transformação nunca se conclui, que o trabalho se inscreve.
A matéria não surge como um mero suporte ou meio, mas como um território de conflito e de passagem. Cada gesto contém, em simultâneo, uma promessa de construção e uma possibilidade de perda, e nesse equilíbrio delicado reside a potência do processo criativo. Os materiais escolhidos — aço, correntes e vidro — transportam em si mesmos esta tensão entre resistência e fragilidade. O peso e a força do metal confrontam-se com a transparência e a vulnerabilidade do vidro, compondo um campo de forças que nunca se estabiliza. As correntes, simultaneamente um vínculo e um limite, prolongam esse jogo entre restrição e abertura. Cada peça nasce assim da fricção entre materiais de naturezas distintas, que se atraem e se repelem, e cujo diálogo dá forma a um espaço onde criação e destruição se entrelaçam sem nunca se anularem.
O gesto do artista é central neste processo: cada intervenção sobre a matéria implica um corpo presente, atento ao peso, à textura e à reação dos elementos. O gesto é simultaneamente uma tentativa de domínio e rendição ao improviso criando uma narrativa física que se inscreve na própria matéria. O tempo também se manifesta na obra: cada dobra, cada impacto ou fissura é um vestígio do percurso entre o instante do gesto e o olhar do espectador. A obra, assim, permanece sempre em potencial de mudança, um organismo em constante transformação.
Os materiais carregam ainda uma dimensão simbólica que amplifica o seu sentido físico. O aço evocam resistência, permanência e memória; o vidro a delicadeza; as correntes, ligação e limitação. Ao combiná-los, o trabalho constrói um território onde forças opostas coexistem, e cada obra se torna uma polissemia tangível, convidando o espectador a perceber e refletir sobre a tensão que atravessa o processo criativo.
A imprevisibilidade é parte intrínseca deste percurso: cada gesto pode alterar ou destruir aquilo que se construiu, e essa fragilidade é, paradoxalmente, a força que anima a obra. O risco não é apenas um elemento negativo, mas o motor da criação, permitindo que cada peça se situe na fronteira entre o controle e a imprevisibilidade.
A obra apresenta-se num ciclo contínuo de criação e destruição, num duplo impulso que se mantém em movimento perpétuo. A peça central invoca a Welwitschia, planta que atravessa séculos em condições extremas, tornando-se um símbolo ideológico de um ciclo contínuo de transformação que atravessa o processo criativo. Este ciclo de criação e destruição encontra- se em fenómenos naturais e científicos: supernovas, que destroem estrelas para espalhar elementos e formar novas galáxias; buracos negros, que consomem matéria enquanto geram discos de acreção e jatos de energia; a fusão nuclear nas estrelas, que transforma hidrogénio em hélio e energia; e as reações químicas, nas quais átomos se quebram e se reorganizam incessantemente. Assim, a matéria e o gesto revelam o duplo impulso — acumulação e desgaste, construção e colapso — enquanto cada obra oferece um espaço de reflexão sobre a complexidade do impulso criativo, a tensão que percorre materiais e gestos e o fluxo contínuo entre criação e destruição.
Lisboa, 2025
Carolina Piçarra
